Entenda os impactos, desafios operacionais e as estratégias para se adaptar a essa nova realidade fiscal. A reforma tributária promete transformações significativas no cenário empresarial brasileiro e, ao substituir diferentes impostos por novos tributos, como a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), o Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) e o Imposto Seletivo (IS), o governo busca simplificar o sistema, impulsionar a competitividade, garantir a formalização e o crescimento econômico. Contudo, essas transformações trazem desafios e impactos que variam conforme o setor e o porte da empresa, alerta a especialista Veridiana Selmi, Gerente de Inteligência Tributária da Synchro.
O novo modelo de tributação, já em implementação, segue um cronograma estruturado. Em 2026, ano de início da transição, as empresas começam destacando os valores da CBS (0,9%) e do IBS (0,1%) nos documentos fiscais eletrônicos, funcionando como um “teste” e sem cobrança imediata. A partir de 2027, com a extinção gradual de tributos como a Contribuição para o PIS e a Cofins, a CBS será cobrada integralmente, enquanto o IBS terá sua cobrança ajustada, atingindo 1% em 2028. As mudanças no ICMS e no ISS ocorrerão entre 2029 e 2032, com a plena aplicação dos novos tributos a partir de 2033.
Impactos operacionais e setoriais
A especialista explica que a reforma introduz dois modelos de tributação para as empresas, sobretudo no âmbito do Simples Nacional:
“De um lado, o regime simplificado, que mantém a apuração unificada e a menor complexidade contábil, porém com restrições quanto ao creditamento integral dos tributos. Do outro, o regime normal, onde o recolhimento de IBS e CBS ocorre de forma separada, com direito a créditos integrais – o que favorece transações no mercado B2B, mas impõe desafios operacionais e custos maiores com sistemas e contabilidade”.
Segundo dados da CNI e análises do Sebrae, estima-se que a simplificação tributária possa reduzir em até 30% o tempo gasto pelas empresas em conformidade fiscal — um ganho significativo para a produtividade e a competitividade no mercado.
Além disso, essas análises indicam que a redução da cumulatividade dos tributos pode gerar economia de cerca de 12% nos custos operacionais, especialmente nos setores de varejo, indústria de bens de consumo e alimentos. No setor de combustíveis, os ajustes na formação de preços, devido à desoneração cumulativa, podem impactar os valores em torno de 5%, exigindo reavaliação estratégica das empresas nos preços finais.
Além da simplificação: desafios operacionais, financeiros e estratégicos
Apesar dos ganhos macroeconômicos esperados — como melhoria do ambiente de negócios e estímulo à formalização —, a reforma também impõe desafios significativos.
“A fase inicial de testes exige adaptação tecnológica e integração de sistemas com a nova plataforma digital unificada, administrada pela Receita Federal e pelo Comitê Gestor do IBS. Essa centralização, embora aumente a transparência, implica que falhas na adequação dos processos internos podem gerar custos extras e riscos operacionais”, afirma Selmi.
Para micro e pequenos empresários, a escolha entre o regime simplificado e o regime normal impacta diretamente o fluxo de caixa e a competitividade.
“Optar pelo Simples Nacional pode limitar o aproveitamento integral dos créditos tributários, restringindo a atratividade para grandes compradores. Já a opção pelo regime normal pode implicar maior burocracia e atualização constante quanto às obrigações fiscais, desafiando a gestão financeira e a formação de preços”.
Setores sensíveis, como saúde, educação e transporte público, terão medidas de mitigação como cashback para famílias de baixa renda e tratamento diferenciado para produtos com acúmulo de créditos. Já o Imposto Seletivo pode reduzir as margens de setores como bebidas alcoólicas e cigarros, exigindo revisão das políticas comerciais.
Selmi destaca que a reforma mobiliza o empresariado, que vê nela uma oportunidade de modernização e aumento de competitividade. Estudos do Sebrae e da CNI apontam que a redução da cumulatividade beneficiará os consumidores, estimulando a demanda e o crescimento do PIB. O IBGE (2025) mostra que a diminuição dos encargos pode aumentar o investimento produtivo em até 15%, conforme o Ministério da Economia.
“O sucesso da implementação dependerá da capacidade do setor empresarial em se adaptar. É fundamental que as empresas invistam na capacitação de suas equipes e na atualização de seus sistemas, buscando suporte em consultorias especializadas e parcerias com desenvolvedores de tecnologia fiscal”.
Empresas com alto acúmulo de créditos poderão se beneficiar da redução na carga tributária, melhorando margens e estimulando investimentos. Já as que operam com poucos insumos tributáveis precisarão rever seus modelos de negócio, devido ao possível aumento de custos.
Mecanismos de transição
Os mecanismos de transição e medidas compensatórias são fundamentais. O cronograma entre 2026 e 2032 permitirá tempo para ajustes, com compensação de créditos tributários e parcelamento de ajustes, oferecendo alívio especialmente para pequenas empresas. A expectativa é de uma arrecadação mais justa e transparente, que preserve o poder de compra das famílias com medidas como o cashback tributário.
Uma nova era, uma nova visão
Com a criação de tributos como CBS e IBS e a extinção dos impostos cumulativos, o Brasil inicia uma nova era na tributação de bens de consumo.
“Os benefícios potenciais, como a redução do tempo e dos custos operacionais, são evidentes, assim como os desafios impostos pela reestruturação dos processos internos das empresas. O sucesso dependerá da capacidade dos empresários de se adaptarem à nova realidade fiscal”, afirma Selmi.
Enquanto a implementação segue até 2033, o diálogo entre setor público e privado será essencial.
“A transformação da carga tributária pode representar uma revolução nos negócios, mas demandará esforços conjuntos e uma visão estratégica compartilhada para transformar desafios em oportunidades”, finaliza a especialista.
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